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"Durma com ideias, acorde com atitude!"

Livros Poéticos



Introdução

Os Salmos, Jó e os Provérbios, nas Bíblias hebraicas, formam um grupo à parte, com a denominação de Livros poéticos. No uso comum, cristão e moderno, porém, acrescenta-se-lhes também o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos, o livro da Sabedoria e o Eclesiástico ou Jesus de Sirac; e é freqüente entre os Padres gregos bem como entre os autores modernos, estender a todos o nome de Livros poéticos. E com razão; pois o Cântico dos Cânticos e o Eclesiástico são escritos em versos como os Provérbios. O Eclesiastes e o livro da Sabedoria possuem, outrossim, forma poética, embora menos rigorosa. Trata-se, portanto, de um elemento comum a todos esses livros.

São também chamados livros didáticos ou sapienciais, por falarem muito de sabedoria. Mas o título de sapienciais é reservado especialmente aos últimos cinco livros (Prov, Ecl, Cânt, Sab e Eclo); os salmos são na máxima parte de gênero lírico, sem, todavia, lhes faltar o elemento didático; o gênero do Cântico dos Cânticos é exclusivamente o lírico. De resto, lírico e didático são os dois gêneros de poesia cultivada pelos hebreus.

O que caracteriza toda a poesia hebraica é o chamado paralelismo. Ordinariamente, o verso compõe-se de dois membros ou hemistíquios, o segundo dos quais forma certa simetria com o primeiro, ora repetindo com outras palavras o conceito (paralelismo sinonímico), como, por exemplo:

"Quando Israel saiu do Egito,

e a casa de Jacó do meio dum povo bárbaro,

Deus consagrou ao seu serviço o povo de Judá,

e estabeleceu em Israel o seu império" (Sl. 113:1-2);

ora destacando o mesmo conceito por meio de contrastes (paralelismo antitético), como, por exemplo:

"Um filho sábio é a alegria de seu pai,

porém um filho insensato é a tristeza de sua mãe" (Prov. 10:1).

O segundo hemistíquio não é, às vezes, a repetição, e sim o complemento do primeiro (paralelismo sintético ou progressivo), como, por exemplo:

"Com a minha voz clamei ao Senhor,

e ele ouviu-me do seu santo monte" (Sl. 3:5).

A observância dos paralelismos ajuda a compreensão do verso, visto que a segunda parte repete e, muitas vezes, esclarece obscuridades ou figuras contidas no primeiro hemistíquio. Por exemplo: Sab 33:6 o "sopro da boca" de Deus não é senão a sua "palavra," o "f iat" da criação (cf. v. 9); Sl. 71:1 "o filho do rei" não é pessoa diversa do "rei" do primeiro hemistíquio. Deve-se notar de maneira especial que freqüentes vezes os dois hemistíquios paralelos apresentam cada um uma parte e aspecto da idéia, e unidos formam um só conceito. Destarte o citado Prov. 10:1 quer significar que o filho sábio é a glória dos pais, ao passo que o insensato causa-lhes tristeza. Assim no Sl. 91:3 proclamar pela manhã a bondade de Deus, e pela tarde a sua fidelidade tem o sentido de: exaltar dia e noite a liberalidade constante de Deus.

Muito se disputou nos últimos tempos se o verso hebraico tenha um determinado ritmo e qual, sem contudo se ter chegado a um acordo entre os estudiosos a respeito. Mais solidamente provadas parecem estas normas: (1°) O verso, ou melhor dito, o hemistíquio hebraico, deve ter um determinado número de sílabas acentuadas, nada mais; (2°) O número de sílabas acentuadas varia de duas a cinco em cada hemistíquio; (3°) Quando o hemistíquio possui cinco acentos, ordinariamente entre o terceiro e o quarto interpõe-se uma cesura, resultando assim um ritmo elegíaco (com dois períodos de comprimento desigual); (4°) Entre as duas sílabas acentuadas estão em geral uma, duas ou três não acentuadas. Portanto, o número de sílabas num verso ou hemistíquio é indeterminado, mas conservado dentro de certos limites.

A observação exata desse ritmo é de grande utilidade para a pontuação, isto é, a divisão entre os hemistíquios e também entre os versículos, que não raro são mal distinguidos, inclusive na divisão massorética, introduzida pelos mestres hebreus, e geralmente seguida, como se pode ver em Jó 15:23-24:31-32; 16:7-8; 19:14-15, ou nos S1. 16:3-4; 30:11-12; 39:7-9; 64:2-4 etc. Conseqüência dessa atenção às exigências do ritmo é a restituição da composição do poeta sagrado a toda a sua natural beleza e a projeção de uma luz intensa para a compreensão do seu pensamento, animada pelo sopro divino.

O livro, que recebe o título de Jó, do nome de um protagonista, pode ser considerado com toda justiça um dos mais belos poemas da literatura mundial. Tema apaixonante, drama a um só tempo profundamente humano e divinamente sublime, é desenvolvido com tal riqueza de colorido, vigor de afeto e tantos artifícios de forma, que é permitido afirmar que nele o idioma hebraico exauriu a sua facúndia, e a arte, o seu estilo.

Na verdade, a ação é simples. Um homem de proceder irrepreensível é alvo de infortúnios de toda sorte, a ponto de não lhe restarem senão poucas carnes semicorrompidas a cobrir-lhe o esqueleto. Alguns de seus amigos, vindos para consolá-lo, vêem nesse cúmulo de sofrimentos a prova tangível de gravíssimos pecados, pelos quais ele o teria merecido, e o exprobram. Jó, paciente, protesta a sua inocência, sem, porém, conseguir vencer os preconceitos dos seus acusadores. O próprio Deus parece surdo aos brados dilacerantes do infeliz Jó, cujo espírito é torturado ainda mais do que a sua carne. Contudo, sua fé na bondade da própria causa e na justiça de Deus não desfalece, e, superada a prova, Deus intervém para defendê-lo e para restituir-lhe a antiga prosperidade. A conclusão é que, embora por uma misteriosa e sábia disposição divina, às vezes também os justos sofrem sem culpa nenhuma; e que, finalmente, Deus recompensa a virtude des- conhecida pelos homens.

O objetivo do livro é a discussão, concretizada num fato, em torno da razão e da origem ontológica da dor. A discussão, desenvolvida em forma de diálogo entre Jó e seus amigos, e em versos de esmerada feitura, constitui a parte principal e como que o corpo da obra, o poema propriamente dito (3-41). Precede a introdução em prosa (1-2) e encerra-o um epílogo, também em prosa (42), à guisa de coroamento.

Esse o grandioso drama, no qual uma rara profundidade de sentimentos, unida a uma incomparável beleza literária, mantém-se até ao toque final.

A diferença entre o Jó paciente e resignado (1-2) e Jó queixoso e agressivo (3-31) explica-se pelos gêneros literários diferentes das seções. Os discursos de Eliú (32-37) podem ter sido inseridos posteriormente, para completar o assunto, deixado sem solução nos capítulos anteriores. O mesmo se diga quanto a teofania (38-41).

Quem foi o autor desta obra maravilhosa? Ante o silêncio completo do próprio texto, as conjeturas não têm conta. Um dos grandes profetas pré-exílicos? Estariam a seu favor o estilo e a linguagem. Um dos sábios doutores da lei pós-exílicos? O assunto e o modo de dialogar justificariam essa suposição. Seja como for, o autor foi um dos grandes representantes da língua e do pensamento do povo hebraico.

Da natureza poética do livro se segue que não se deve insistir na veracidade histórica de cada passo da discussão. Além disso, a própria índole do diálogo supõe que o autor não tenha querido aprovar todas as idéias expressas pelos interlocutores. A chave da composição conexa está em 42:1-8:Jó, embora tendo um conceito elevado de Deus, pecou por presunção e violência; aos seus amigos, pelo contrário, faltou o conceito adequado de Deus e de sua Providência.

O prólogo e o epílogo são ficções literárias. Discute-se a historicidade da pessoa de Jó; a opinião mais plausível é a de que também seja um personagem fictício, pois o objetivo da obra não é contar a história de um sofredor, e sim, oferecer uma solução e um consolo a todos os que sofrem. A cena passa-se nas fronteiras entre a Iduméia e a Arábia. A antigüidade cristã venerava a terra de Jó nas vizinhanças de Carnaim, hoje Cheh Sa'ad, na Batanéia (cf. 1Mac 5:26), onde subsistem reminiscências na toponomástica local.

Jó raras vezes é mencionado no resto da Sagrada Escritura. Em Ez 14:14-20 é posto entre os homens retomados pela sua justiça e virtude. Em Tob 2:12-15 e em Tg 5:11 é proposto como exemplo de paciência heróica. Com efeito, a paciência de Jó tornou-se proverbial. Se hoje, à luz da doutrina evangélica, encontramos motivos de conforto bem mais eficazes do que os que Jó podia encontrar na luz imperfeita da razão e mesmo da antiga lei, tanto mais valem a sua heróica resignação e constância sob o peso de tamanhas desgraças.

Salmos

É uso vindo das Bíblias gregas e latinas, chamar Salmos aos cânticos sagrados que os hebreus, e também os gregos e os latinos, bem como as nossas antigas vulgarizações, com mais propriedade intitulam hinos. São poesias religiosas de argumentos variados, o mais das vezes orações ou louvores a Deus.

A coleção desses hinos, chamada, por analogia, Saltério, nas Bíblias hebraicas divide-se em cinco livros, separados entre si pela doxologia ou aclamação ("Bendito seja o Senhor" etc.), que se lê no final dos salmos 41,72,89,106. Mas é divisão recente, introduzida, ao que parece, por volta do séc. III a.C. Em tempos mais remotos, compunha-se de três grandes coletâneas, que se distinguem pelo emprego dos nomes para invocar a divindade. A 1ª (Salmos 1:40) e a 3a. (91-150) empregam Senhor (hebr. "Javé"), a 2a (41-88), Deus (hebr. "Eloim").

Distingue-se ainda pelos nomes dos autores, que cada salmo traz no cabeçalho. Na 1ª, quase todos os salmos, exceto 1,2,32, são intitulados de Davi; na 2ª são três séries, intituladas, respectivamente, dos filhos de Coré, ou coreítas, de Davi e de Asaf; na 3ª quase todos os salmos são anônimos. Com os títulos, varia também o teor geral do argumento.

Os salmos atribuídos a Davi são, em máxima parte, pedidos de auxílio em todas as aflições, de modo especial nas enfermidades e nas perseguições. Os cantos dos filhos de Coré, conforme sua condição de levitas (cf. Núm 16:1), têm por tema central o culto, o templo, a cidade santa. Os de Asaf são cânticos nacionais ou didáticos, que celebram o triunfo ou deploram as derrotas de todo o povo, ou têm por fim ensinar verdades morais. A coleção anônima compõe-se na maioria de hinos de louvor ou de ações de graças ao Senhor. Nela sobressai também uma coletânea particular de salmos breves, chamados graduais (119-133), de índole levítica.

Do exposto infere-se que a atual coleção de salmos ou Saltério, foi se formando aos poucos, desde os tempos de Davi (cerca de 1000 a.C). até depois de Neemias (cerca de 400 a.C.). Em todo esse longo período, em todas as gerações, os piedosos poetas, inspirados por Deus, transfundiram nos salmos os seus santos afetos, suas fervorosas súplicas, os transportes de sua alma profundamente religiosa. Destarte, recolhendo o Saltério o eco de todo um povo e de tantos séculos, era, por natureza, apto a se tornar, como de fato se tornou, o livro de orações, o manual de piedade, primeiro para a Sinagoga israelita, depois para toda a Igreja cristã.

Muito importantes, relativamente aos nossos conceitos, são dois vocábulos que raramente aparecem nos títulos, mas são freqüentes no texto dos Salmos: "tefilã = súplica" e "tehilã = louvor." É assim que são designados os gêneros mais freqüentes dos Salmos. No primeiro, na súplica, que compreende mais de um terço de todo o Saltério, um indivíduo ou (mais raramente) a nação, assaltado por males de toda a espécie, recorre a Deus para deles se livrar. Destarte, na sua abundância e variedade, os salmos oferecem modelos de oração para todas as circunstâncias da vida humana. O outro gênero, de louvor ou hino a Deus, era indicado de maneira especial para o culto público nas funções religiosas do templo e está concentrado sobretudo nos livros IV e V. Em menor número é os salmos didáticos ou sapienciais e morais, cheios dos mais diversos ensinamentos para a vida, e os salmos históricos, que rememoram, para exaltação de Deus ou ação de graças, ou para ilustração dos pósteros, os grandes acontecimentos da vida nacional. Restam ainda salmos que escapam a qualquer categoria, tão grande é a variedade desta nobilíssima antologia de poesia religiosa.

Para melhor lhe saborear toda a beleza e experimentar a eficácia, esforce-se o leitor por se apossar dos sentimentos e afetos expressos pelo texto sagrado. Se alguma passagem, como nos chamados salmos imprecatórios (58-69; 83;109), parece dura e chocante para almas acostumadas à suavidade evangélica (cf. Mt 5:43), lembremos o zelo puro pela justiça e honra de Deus que animava os autores sagrados (cf. 5:11; 69:10; 139:21), e poderemos manifestar para com o pecado todo o rigor da antiga lei, ao passo que reservaremos toda a caridade e a misericórdia da nova lei para o pecador.

Provérbios

Entre os hebreus, como em todas as nações, eram correntes os provérbios vulgares, patrimônio comum da sabedoria popular. Por exemplo: "Dos maliciosos procede à malícia" (1Sam 24:14) ou: "Tal mãe, tal filha" (Ez 16:44). Bem superior a este gênero popular eleva-se o provérbio douto, o "masal" dos sábios, fruto da reflexão, digamos filosóficas. É uma sentença breve e conceituosa que, sob forma sutil e freqüentemente figurada, dita ensinamentos úteis para a vida. Sua origem e nome parece ter sido a semelhança ou comparação (tal o sentido primitivo da palavra "masal"; exemplos: 26:1-2), passada, portanto, para o sentido de comparação ou semelhança abreviada (p. ex., 25:25-26) para a antítese (10:1-5) e, enfim, para o dito sentencioso em geral. Na sua expressão mais pura, consta de duas frases ou hemistíquios paralelos, o segundo dos quais corresponde ao primeiro numa das diversas maneiras de paralelismo poético. É a forma com que se expressava comumente a filosofia elementar e prática dos hebreus, conhecida com o nome de "Sabedoria." Os escritos em que foi consignada formam a literatura propriamente sapiencial, que podemos chamar de poesia gnômica.

Composto em grande parte desses ditos, em forma de masal, é deles que toma nome o presente livro dos Provérbios. O argumento e a finalidade estão claramente expostos nos versos iniciais (1:1-6).

Observando-se com atenção, notar-se-á sem dificuldade que o fundo ou corpo do livro é formado por duas coleções de sentenças salomônicas (10:1-22, 16 e 25-29), às quais os capítulos 1-9 servem de introdução e que as outras coleções menores constituem, às vezes, como que apêndices. Esta a razão por que o livro, tomando o nome do autor principal, é chamado, no título (1:1), e com ele na linguagem eclesiástica, Provérbios (ou sentenças) de Salomão.

Este breve esboço pode dar uma idéia da riqueza e da variedade que este livro apresenta sob o duplo aspecto da matéria. e da forma. Pode-se dizer que à vida toda da antiga sociedade israelita é passada revista, analisada, julgada segundo uma moral toda impregnada de bom senso e praticidade. As fontes desta moral são a experiência e a religião. Da experiência, mestra da vida, o autor sagrado tira lições práticas, ou recolhe simplesmente os fatos (20:4). A religião, ainda que não seja sistematicamente exposta, quer nos seus fundamentos dogmáticos, quer nas suas práticas cultuais (em geral os Provérbios não querem ser uma exposição sistemática da moral, mas sim ditames práticos), todavia é sempre pressuposta, ou, é posta como base de toda a moral (1:7; 9:10; 14:2 etc). e declarada fonte de toda a verdadeira felicidade (14:26-27; 15:16). Muitas e muitas vezes são inculcados nesta obra os grandes fundamentos de uma moral íntima, forte e convicta, como, p. ex., a de que Deus tudo vê (5:21; 15:3-11), tudo toma em consideração até os mais recônditos sentimentos do coração (16:2; 17:3), tudo governa (20:12-24; 22:2; 29:13) e tudo pode (19:21; 21:30) ; que longe de Deus não pode haver bem (15:29), que se entregar a ele é encontrar a força, a sabedoria, a alegria (3:5;16:20;18:10 etc.). Quanta eficácia na simplicidade da expressão do motivo tão freqüentemente repetido para afastar do vício: "desagrada a Deus, Deus o abomina" (3:32;11:1-20;12:22; 24:18 etc.).

É com razão, portanto, que a Igreja considera os Provérbios uma pérola entre os livros inspirados por Deus. Evidentemente, não podemos esperar encontrar nos ditos do Sábio toda a sublime elevação da moral evangélica, mas são-lhe uma boa preparação, e não raro muito se lhe aproximam. Razão por que freqüentemente os apóstolos e o próprio Jesus Cristo repetiram formalmente os Provérbios (Jo 7:38; Rom 12:20; Tg 4:6) ou os seus ensinamentos (cf. Lc 14:10 com Prov 25:7; 1Pdr 4:8 e Tg 5:20 com Prov 10:12).

Eclesiastes

Singular entre todos os livros do Antigo Testamento é, sob diversos aspectos, o presente. Seu título, Eclesiastes, é a tradução grega do nome hebraico, que no próprio texto designa-lhe o nome, isto é, Cohelet, particípio (feminino) do verbo "cahal," cujo significado é "reunir, convocar." E porque em grego "ecclesiastes" significa também "orador que fala na assembléia," certo tempo acreditou-se que esse livro fosse um discurso, um sermão feito ao povo israelita em assembléia pública. Mas, na realidade, o presente opúsculo nada tem de oratório, e deve ser incluído no gênero de filosofia fragmentária, que, com o título de "Pensamentos," é conhecida também nas literaturas profanas, antigas e modernas.

Dada essa índole geral do livro, não causará maravilha o fato de não se encontrar nele uma ordem estritamente lógica no desenvolvimento das idéias. Os intérpretes também discordam entre si na divisão das diversas matérias.

O Eclesiastes é misto de reflexões em prosa e de sentenças em versos. São seis ordens de reflexões intercaladas por cinco grupos de sentenças, com um prólogo que precede o corpo da obra e um epílogo que o encerra. O argumento geral da reflexão é a vaidade das coisas humanas; a insensatez da excessiva solicitude pelos bens terrestres, marcadamente as riquezas e os prazeres; a moderação em todas as coisas, quer na busca do bem-estar e da própria virtude, quer na fruição das alegrias que Deus difundiu na vida presente.

O livro todo é matizado de suave colorido de serena melancolia e profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, o que o torna poderosamente simpático. Sua doutrina valeu-lhe a tacha de cético e epicureu, mas não passa de julgamento superficial e errôneo. Não obstante Cohelet deplore em muitos pontos a ignorância humana, causa de não poucas aflições, e a impotência da razão para solucionar os mais cruciantes problemas da vida e para dar a felicidade plena, não negam, todavia, a possibilidade de chegar a certo conhecimento de muitas coisas, e, sobretudo, tem uma fé inabalável em Deus e na sua ação no universo e na sociedade humana. Convidando-nos a gozar dos bens desta vida com a devida moderação, honestidade e gratidão para com o Doador, bem longe está de pôr o fim da existência no prazer, e ensina. também uma virtude, se bem que nem toda a virtude. Sua moral não é perfeita, como tampouco o era a lei antiga (Hebr 7:19), mas é sadia e proporcionada aos tempos do autor. Ainda hoje ela é capaz de inspirar magnânimos propósitos a um coração cristão.

A linguagem e o estilo do Eclesiastes distinguem-se entre todas as páginas do Antigo Testamento pelos vocábulos e construções de uma era bastante tardia, e formam como que a transição entre o hebraico da era clássica e o do Talmude (séc. II-V d.C.). Muito se discutiu sobre quem seja o autor. Pode-se ao certo, dizer que foi um mestre de sabedoria popular (12:9), e que Cohelet foi seu nome literário ou acadêmico, e não próprio.

Outra questão ainda debatida é se na composição do livro além de Cohelet tenham tomado parte outras mãos (unidade ou pluralidade de autores). Pode-se facilmente conceder que o epílogo (12:9-14) tenha sido acrescentado pelo editor do livro, presumivelmente um discípulo do próprio Cohelet. Mas será necessário, para explicar a variedade e às vezes o choque de sentimentos que se notam em todo o livro (cf. p. ex., 2:15-17 com 7:19-24; 3:6-19; 7:2-4 com 2:2 e 8:15; 8:10-13; 11:9), supor, como o fazem alguns modernos, que no opúsculo, radicalmente pessimista e deleitoso de Cohelet, outros, como, por exemplo, um sábio ou piedoso fiel, tenham inserido sentenças morais, a fim de temperar-lhe a crueza? Não parece; o gênero literário dos "Pensamentos" e o humor pessoal de Cohelet, levado a refletir sobre os vários aspectos das coisas humanas e a passar de um a outro afeto, bastam para dar uma explicação adequada aos vários matizes que no Eclesiastes se alternam ou temperam, aumentando-lhe o valor e a atração. Ademais um mesmo é o estilo, tão característico, no livro inteiro; mesmo é o Espírito, que lhe garante cada palavra.

Cântico dos Cânticos

O Cântico, ou, como de costume se traduz literalmente do hebraico, o Cântico dos Cânticos, apresentasse-nos na estrutura de pequeno poema, entre o lírico e o dramático, no colorido de um idílio e com o teor de um cântico de amor, qualidades essas que lhe conferem um lugar todo particular nas Sagradas Escrituras, ao passo que pela elegância literária deve ser posto entre as mais preciosas páginas da pura poesia hebraica. Se, porém, cantasse propriamente amores profanos, não teria sido por certo jamais inserido entre os livros inspirados das Escrituras. Foi, portanto, tradição constante e unânime da Sinagoga judaica, como o é da Igreja cristã, que no Cântico, sob a alegoria de amores profanos, celebra-se o amor mútuo entre Deus e seu povo, entre Deus e o fiel piedoso. Somente o racionalismo moderno tentou despojá-lo dessa auréola divina, reduzindo-o a um eco de simples amores profanos. Com essa atitude, porém, ele levantou para si uma barreira que lhe impede a reta compreensão do livro.

A alegoria, admitida comumente por cristãos e judeus, não foi, porém, interpretada de igual maneira, e há muitos e diversos sistemas de interpretação. Destas, a que se segue parece, a um só tempo, a mais simples e a que melhor corresponde aos dados intrínsecos do livro e às condições históricas do antigo Israel.

A ação do Cântico é uma parábola e um contraste: uma parábola de fundo idílico, e um contraste entre duas vidas, entre dois amores. Uma ingênua pastorinha, alcunhada a Sulamita (6:12; 7:1), ama intensa e ternamente um jovem pastor, seu coetâneo e conterrâneo, pelo qual é cordialmente correspondida no amor: os dois protagonistas são chamados, no texto, "amado" e "amiga" respectivamente (só em 4:8-9, "irmã" ou "esposa"), mas pelo uso comum também "esposo" e "esposa." O afeto mútuo é estreitado pelo arroubo comum diante da vida inocente dos campos e ante o encanto da natureza virgem. É o idílio.

Com esta vida simples e pura, contrasta a vida da cidade com suas comodidades, a corte com suas seduções, um rei potentado (simbolizado aqui e ali por Salomão, o mais rico e faustoso monarca que a história de Israel conheceu), o qual desejaria atrair a jovem pastora ao seu amor, à honra de ser sua consorte. Mas a generosa donzela recusa desdenhosamente as ofertas do rico soberano e sente-se satisfeita com a vida simples dos campos, desejando permanecer para sempre fiel ao seu pastor, único objeto dos seus castos amores.

Isso tudo entremostra a alma de Israel posta em risco entre a fidelidade à sua religião austera e os deslumbrantes esplendores da civilização pagã; entremostra toda alma fiel, atraída pelos amores antagônicos de Deus e do mundo. De fato, embora o povo de Israel, pela sua doutrina religiosa e moral, superasse incomparavelmente qualquer outro povo da antigüidade, é, todavia, inegável que, na civilização material e em poderio político, ficava muito aquém dos poderosos impérios vizinhos do Egito, da Assíria, da Grécia, com os quais a sua história o colocou num contato quase contínuo. Essa esmagadora superioridade das nações-pagãs podia ser um escândalo para as almas fracas, podia, pelo menos, perturbar as almas piedosas, e debilitar, se não abalar, o seu apego a Deus, à religião avita. Dão-no-lo a entender não poucas páginas da Sagrada Escritura, como Dt 17:14-20; 2Rs 18:17-37; Jer 2:18; Bar 6; 1Mac 1:12-15. O próprio Salomão, que promoveu mais do que qualquer outro a cultura civil em Israel e imitou o fausto e a moleza das cortes orientais (1Rs 10:14-11:13), e foi, sem dúvida, um sério perigo para a religião. A fim de fortalecer os espíritos no amor ao culto severo dos antepassados, e para precavê-los contra a sedução da deslumbrante civilização pagã, o Cântico descreve, nos seus castos e jucundos amores da Sulamita para com seu amado, a felicidade do povo eleito na fidelidade ao seu Deus.

Sabedoria

Entre todos os livros didáticos do Antigo Testamento, o presente traz por excelência o título de Sabedoria porque canta mais longamente e com acentos mais sublimes do que qualquer outro o elogio da verdadeira sabedoria, que tem por objeto a verdadeira religião e a virtude, mas o seu princípio no próprio Deus. Este conceito liga, como fio de ouro, numa maravilhosa unidade, as variedades notáveis das cinco partes, sensivelmente iguais, que compõem o livro.

1a - Admoestação a praticar a justiça e a religião, e como motivo para assim agir, a oposição entre a sorte final dos bons e dos maus, prêmio dos justos e castigo dos ímpios na vida futura (1-5).

2a - Elogio da Sabedoria pelas suas qualidades intrínsecas e pelos bens que proporciona ao espírito humano. Fala Salomão (6-9).

3a - Qualidades da Sabedoria patenteadas na história sagrada; bens que a Sabedoria trouxe aos patriarcas desde Adão até Moisés (10-12).

4a - Origem, insensatez e imoralidade da idolatria (13-15) : animismo (13:1-9); fetichismo (13:10-14:11); divinização de homens (14:12-20); corrupção profunda (14:21-31) ; a religião de Israel e o politeísmo egípcio (15).

Ao tomar e desenvolver o seu argumento, o autor sagrado teve por finalidade imediata confirmar na fé e na prática da santa religião os judeus do Egito, sustentá-los nas opressões, que por causa dela deviam sofrer, e preservá-los da sedução, que sobre eles podia exercer a brilhante civilização pagã sob a dinastia grega dos Ptolomeus.

Com efeito, não pode haver dúvidas de que o livro foi escrito primitivamente em grego, idioma usado pelos judeus do Egito, especialmente em Alexandria, nos últimos séculos que precedem a era vulgar. Nota-se nele não só o colorido grego da língua e do estilo, mas também o reflexo das escolas filosóficas e dos costumes da douta Grécia pagã.

Estes reflexos indicam aproximadamente a época em que viveu o autor. Já que no seu tempo (como se releva de 2:10-3,4; 5:1) os judeus tinham que sofrer bastante, quer da parte dos pagãos, quer dos seus correligionários apóstatas, podemos precisar esta época um pouco melhor. É historicamente fundado o fato de que nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C). e Ptolomeu Dionísio (80-52 a.C) tiveram lugar no Egito sublevações populares contra os judeus.

O livro, portanto, deve ter sido escrito entre os anos 100 e 50 a.C.

Autores houve que pretenderam baixar a idade até à época romana, (30 a.C). e na antigüidade algum escritor, segundo S. Jerônimo (Pref. aos liv. de Salom,), atribuiu-o a Fílon hebreu (cerca de 20 a.C. - 40 d.C.). Mas o livro da Sabedoria versa com demasiada insistência e predileção sobre fatos e costumes especificamente egípcios, para se poder referi-los a povos e soberanos cuja sede não se achava no Egito. Além disso não se pode afirmar que os romanos houvessem "tiranizado o povo de Deus" (15:14) antes de Vespasiano e de Tito (70 d.C.). Também as doutrinas e o estilo diferem notavelmente dos de Filon. Pode-se, isto sim, colocar o autor do presente livro entre os primeiros e mais ilustre mestres daquela escola judaica de Alexandria, da qual Fílon foi mais tarde o astro mais luminoso.

Verdade é que nos cc. 7-9 o autor fala e escreve como se fora Salomão, rei de Israel, que reinou em Jerusalém no séc. X a.C. (cf. 1Rs 3:5-12) e por isso nos códices gregos o livro tem ordinariamente o título de Sabedoria de Salomão. Mas isto é um inócuo artifício literário empregado nas antigas literaturas, uma espécie de prosopopéia, visando a dar ao discurso maior atração e eficácia, tomando para tanto o tom de insigne personagem antiga.

Este artifício humano nada tira à autoridade divina do livro, isto é, à sua inspiração, que é assegurada não só pelo magistério da Igreja, mas também pelo uso que do presente livro fizeram os autores do Novo Testamento, os quais, se o não citaram nominalmente, apropriaram-se de pensamentos e construções que lhe são próprios. Confrontem-se, por exemplo, principalmente, Sab 12:12-22, com Rom 9:19-23; Sab 9:15 com 2Cor 5:4; Sab 3:5-6 com 1Pdr 1:6-7; Sab 7:25-26 com Hebr 1:3; Sab 7 em geral com Jó 1.

Eclesiástico

O presente livro, que na Igreja latina, desde o fim dos primórdios (por exemplo, desde S. Cipriano até ao séc. III) passou a chamar-se o Eclesiástico por excelência, porque o mais notável dos livros lidos nas igrejas para instrução dos catecúmenos ou dos neocristãos, é o mais extenso e o mais rico de ensinamentos entre os livros do Antigo Testamento. Entre os gregos tem o nome de Sabedoria de Jesus, filho de Sirac, ou simplesmente Sirac, do nome de seu autor. No texto original hebraico, segundo testemunho de S. Jerônimo (Prefácio aos livros de Salomão), confirmado por citações de rabinos, chamava-se como o correspondente livro de Salomão, Provérbios do filho de Sirac (cf. 50:27). Mas entre os hebreus era também conhecido, como na versão siríaca, sob o título de Sabedoria, comum entre os gregos.

Efetivamente, o Eclesiástico (como o chamaremos, segundo o nosso uso) toma o argumento e a divisão da Sabedoria. Distinguem-se nele dez partes, começando todas com o elogio da Sabedoria ou com um hino a Deus, autor de toda a sabedoria; seguem-se dois pequenos apêndices.

No fim da 10a parte (50:27), como pós-escrito, o autor dá-nos o seu nome: Jesus, filho de Eleazar, filho de Sirac. O tradutor grego, que certamente andava bem informado, acrescentou-lhe a terra natal: jerosolimitano. Sirá (em grego "Sirac") parece mais o sobrenome de família do que de avô; daí o dizer-se muitas vezes sirácida. O tempo em que viveu nos é indicado por duas datas aproximativas. No próprio livro (c. 50), Sirac nos descreve Simão, filho de Onias, o sumo sacerdote, com cores tais, que demonstra muito bem tê-lo visto e admirado ocularmente no exercício de suas sagradas funções. Dos dois sumos pontífices que trouxeram este nome, o primeiro dos quais viveu por volta do ano 300 a.C. e o segundo um século mais tarde, deve-se por certo entender o segundo. Com efeito, o tradutor grego, que no prólogo à sua tradução declara-se neto do autor, informa-nos ter ido ao Egito por volta do ano 38 do reinado do Ptolomeu Evérgetes. Ora, visto que dos dois Ptolomeus que tiveram o nome de Evérgetes (I, 247-222; 11, 171-117 a.C) só o II alcançou e superou o ano trigésimo oitavo de reinado (iniciado em 171 a.C), assim aquela data leva-nos ao ano 132 a.C. Entre este e a época de Simão II (219-199 a.C) passam-se exatamente duas gerações, que são as que intercorrem entre avô e neto. Jesus, filho de Sirac, viveu, portanto, entre os séc. III e II a.C, e deve ter escrito o seu livro entre os anos 200 e 180 a.C.

Escreveu em hebraico, mas o texto original, visto por S. Jerônimo (Prefação acima mencionada) e muitas vezes citado por escritores judeus da Idade Média, havia séculos estava perdido, até que, entre 1896 e 1900, foram encontrados cerca de dois terços do mesmo (3:8-16; 26:30-33; 35-fim), além de poucos trechos intermediários num escaninho de uma velha sinagoga no Cairo em fragmentos de cinco manuscritos diversos. Porém encontra-se num estado formal bem menos satisfatório do que o texto hebraico dos livros protocanônicos. Amánuenses e recenseadores permitiram-se muito mais liberdade ou negligência com o livro de Sirac do que com as Escrituras do cânone hebraico. Por isso maior valor do que de ordinário têm também as duas antigas versões independentes, a grega e a siríaca, especialmente a primeira.

O livro foi traduzido para o grego pelo neto do próprio autor, pelo fim do séc. II a.C, como, aliás, ele mesmo nos informa no prólogo da sua versão.

Este prólogo é importante, não só porque nos oferece as datas da composição e da tradução do livro, mas ainda porque nos mostra como no séc. II a.C os livros sagrados do Antigo Testamento já se distinguiam, entre os judeus, nas três ordens que passaram a ser depois tradicionais: lei (Pentateuco), profetas e escritos, e como cada uma dessas ordens estava traduzida, ao menos em boa parte, para o grego. Da versão grega do Eclesiástico, além do texto comum e mais castiço, que se encontra no códice Vaticano 1209 (B), eram correntes também, códices dos quais ainda restam, com não poucas edições da primeira parte (1-26). Com base num desses códices foi feita a tradução latina da Vulgata

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M. Rocha