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"Durma com ideias, acorde com atitude!"

MISSIOLOGIA




Para entendermos os critérios das mudanças na área de ensino missiológico em todo o mundo nos últimos 30 anos precisamos estudar as tendências teológicas presentes em cada contexto.

A grosso modo veríamos que nos anos 70 a missiologia possuía uma ênfase eclesiológica localizada e pragmática. Avaliava-se na época a identidade da Igreja como comunidade responsável por transmitir o evangelho de Cristo por toda a terra. Esta ênfase eclesiológica com aplicabilidade pastoral/eclesiástica definia a formação da mentalidade evangélica levando à uma consciência de quem nós somos e para que fomos chamados. A parte das instituições missionárias especializadas nas áreas de tradução e serviço social não participavam integralmente do afã da Igreja e o treinamento missionário voltava-se mais para a conscientização da responsabilidade evangelistica do que para o método ou estratégia missionária. Foi uma época de fundamentação missiológica, a época dos conceitos, que preparou a Igreja dos países emergentes para a segunda década.

Nos anos 80 iniciou-se um processo centrado na análise e avaliação do campo missionário e notamos o que tenho chamado de “Efeito PNA” (Povos Não Alcançados) fazendo com que Missões passasse a ter uma forma gráfica e estatística. Quem são os PNAs, onde estão e como alcançá-los. Surgiram os pesquisadores, os movimentos de categorização da prioridade missionária no mundo e a ênfase na definição do que seria a grande meta missionária da Igreja nos próximos anos. Movimentos como AD 2.000, WEC International (AMEM), World Mission e outras dedicavam-se intensamente à tarefa de definir o que era, onde estava e qual a chance de alcançar os grupos ainda intocados pelo evangelho. Definiu-se a janela 10X40, entendeu-se a dimensão do desafio islâmico, foi revelada a necessidade de investimento missionário entre o crescente grupo dos “Sem Religião” e compreendeu-se melhor a permanente resistência dos grupos animistas além do sempre presente perigo do sincretismo religioso. Era a década da definição da largura, extensão e profundidade do restante não alcançado em nossa geração e do que ainda precisava ser feito.

Dois grandes passos haviam sido dados até então: a fundamentação de uma missiologia voltada para a identidade da Igreja e o estudo dos grupos alvos do esforço missionário. Neste ínterim, através do massivo envio missionários nos anos 80, percebeu-se a existência de uma brecha entre o ideal missionário e a realização missionária e assim entramos na década seguinte com uma forte consciência de que faltava algo.

Nos anos 90, com a visão das limitações missionárias, problemas frequentes de contextualização e comunicação transcultural, limitada aplicabilidade das teologias bíblicas em contexto inter-cultural e reduzido número de igrejas autóctones entre os grupos recém alcançados, fomos levados a crer que a formação missiológica, a descrição de nossa identidade funcional, princípios e conceitos como Corpo chamado a fazer diferença na terra, era insuficiente perante o sonho de plantio de igrejas no restante intocado do planeta. Faltavam-nos instrumentos, preparo prático, instrução sobre como fazer, tecnicabilidade; enfim, faltava-nos um manual sobre “como fazer” – treinamento missionário. Ao longo dos anos 90 nos rendemos à conclusão de que o grande desafio da década, e possivelmente da década seguinte, seria a preparação teológica, ortoprática e funcional de obreiros transculturais e assim passamos a falar em redefinição de currículos, idealização de melhores treinamentos, fundação de novas escolas de Missões e toda a ênfase voltou-se para a pessoa do missionário gerando também um aprofundamento nos critérios de aceitação, treinamento e envio de novos missionários. Fenomenologia da Religião, Antropologia Cultural, Fonética, Aprendizado de Línguas, Tradução e Teologia de Missões ganharam ênfase em várias instituições de ensino.

Ao fim da década de 90 a consciência da necessidade de melhor formação de obreiros foi captada de maneira geral entretanto ainda estudamos a melhor fórmula de fazê-lo. Precisamos de mais pragmatismo em nossa compreensão do caminho a tomar.

Prejuízo Histórico

Vivemos em um prejuízo histórico missionário como todos os países missiologicamente embrionários onde possuímos uma pequena leva de missiólogos para um grande número de instituições de treinamento missionário onde a grande maioria de nossos professores não tiveram a oportunidade de serem expostos a um contexto transcultural missionário e por outro lado, o grosso dos nossos missionários mais experientes ainda encontram-se na ativa em diferentes campos. Este é um prejuízo histórico comum no momento que nos encontramos, basicamente vivendo a nossa segunda geração missionária. D.L. Zabunn, professor de missiologia no Betany Mission Seminariy na África do Sul afirma que normalmente apenas a partir da sexta geração missionária um pais passa a contar com um número substancial de missionários envolvidos na formação de novos obreiros e “devemos lembrar que missionários funcionalmente capazes em seus campos não são necessariamente missiólogos ou professores de missões” . Países como a Coréia do Sul, Nova Zelândia, Austrália, Brasil e Tanzânia vivem situações parecidas do ponto de vista do preparo: a falta de uma ponte que una a realidade do desafio do campo missionário e a presente proposta de preparo missiológico.

É certo que não podemos lidar com todas as implicações desta realidade histórica na qual nos encontramos entretanto creio que podemos minimizar seus efeitos. Precisamos definir nossas prioridades e limitações em nosso treinamento e formação missionária. Costumo afirmar que, pela índole evangelística da Igreja brasileira, temos em nosso território um laboratório natural para a formação de plantadores de igrejas. Somos uma nação etnicamente multicultural e nossas raízes histórico/culturais remontam a um passado menos distante que países com homogenia étnica fazendo com que a chamada ‘Expectativa Cultural” seja menos gritante.

Para minimizarmos os efeitos do prejuízo histórico no qual nos encontramos creio que poderíamos pensar e tentar enfatizar, sob as definições de sua aplicabilidade funcional, três áreas da formação missionária as quais, pelo simples fato de serem comumente apontadas por obreiros provindos de ‘novos países’ como as principais barreiras na tentativa de uma verdadeira comunicação do evangelho em grupos mais isolados, constituem para mim o supra sumo da nossa carência de treinamento integral. São elas a Antropologia Cultural, Teologia Bíblica e Aprendizado de Línguas.

Antropologia Cultural

Entendamos inicialmente a relevância da Antropologia Cultural, ou “Antropologia da Observação Cultural” como definia M. Stuart no início dos anos 50, na necessária tarefa de ‘explorar a possibilidade da comunicação do evangelho a outro grupo que, culturalmente, possua outros padrões de valores existenciais na transmissão de uma mensagem’. Fala a respeito da possibilidade de real comunicação entre dois grupos distintos com diferentes (e as vezes divergentes) cosmovisões.

Respondendo a um missionário que fortemente indagava “mas qual a aplicabilidade da Antropologia Cultural em meu ministério” comecei a responder dizendo:

“A Antropologia Cultural, funcionalmente definindo, é um instrumento de reconhecimento das perguntas existentes em certa cultura, socialmente interpretadas ou não pelo próprio grupo, entretanto necessárias para se diagnosticar os pontos de tensão socio-etnologico ali existente. Provê as ferramentas necessárias para o mapeamento cultural do grupo alvo através da definição da hierarquia social, hierarquia socio-espiritual, expressões ritualisticas e cerimoniais, cosmologia, cosmovisões e costumes, linguagem interativa e comunicabilidade. O alvo da antropologia cultural, missiologicamente falando, é levantar as perguntas socialmente relevantes afim de receber respostas biblicamente centradas. O alvo final é fomentar transformação de vida e sociedade através de um evangelho que faça sentido na cultura receptora e não apenas na mente e coração daquele que transmite.

Como exemplo poderíamos pensar sobre o tempo linear e cíclico. Quando um povo animista possui toda a sua cosmologia definida pelo tempo cíclico (baseado em acontecimentos que ‘marcam’ o tempo e necessariamente se repetem, não avançam ou retrocedem) e não linear (como o nosso tempo ocidental que segue uma linha contínua progressiva e não repetitiva) fazendo com que o dia 4 de julho de 1999 nunca venha a se repetir em nossos calendários, mentes e cosmologia, isto gera questionamentos socio-existenciais que precisam ser respondidos para a compreensão, aceitação e viabilidade cultural do evangelho dentre o povo.

Em termos práticos, é necessário saber quais são as perguntas (este é o trabalho da Antropologia Cultural) antes de tentar respondê-las (Teologia bíblica). Por exemplo, expor o evangelho numa perspectiva linear para um povo com cosmovisão cíclica terá um dos três possíveis resultados:
a) entendê-lo como uma mensagem alienígena e possivelmente aplicável apenas a uma cultura estrangeira;
b) entendê-lo parcialmente e tentar preencher os vácuos deixados com respostas da religião materna; o que geraria sincretismo religioso;
c) não entendê-lo.

Deixando o simplismo óbvio com o qual estamos lidando seria necessário pensarmos, numa perspectiva do prejuízo histórico no qual vivemos, quais seriam as áreas de estudo na Antropologia Cultural que fariam nossos missionários mais bem preparados para o grande desafio. Antes de propô-las devo remarcar que estou partindo de um pressuposto de envolvimento cultural a nível de M5 ou M6 e assim sendo, concentrando nossos pensamentos sobre o desafio principalmente entre os PNAs.

Dentre as mais variadas áreas da Antropologia como Antropologia Cultural, Etnicismo, Etnologia, Costumes e Culturas, Fenomenologia Religiosa e Comunicação Social há duas altamente relevantes para nossos candidatos à obra missionária transcultural que são Fenomenologia da Religião e Etnologia. A relevância destas duas áreas de estudo deve-se mais à observação dos comuns erros de campo (inclusive e principalmente os meus) do que em uma tentativa de estruturar um currículo ideal de conhecimento antropológico. Dentre estes ‘erros comuns’ há três que tem vindo à tona quase sempre quando a comunicação é restritiva, parcial ou simplesmente ausente. Eles giram em torno da falta de compreensão de que:

1. Nem tudo o que é diferente é religioso

Entre os Bassaris, tribo vizinha aos Konkombas com os quais trabalhamos, há um complexo ritual onde um composto de água e gordura é derramado constantemente sobre o corpo de alguém morto recentemente, usando-se uma cuia de madeira enquanto algumas palavras são ditas por uma pequena multidão que se coloca ao redor. Próximo dali é acesa uma fogueira onde folhas verdes são queimadas enquanto um pouco de água é aspergida sobre o fogo por pessoas ligadas àquele que morreu. Lendo um relato de um missionário que esteve entre eles 20 anos atrás ele ao fim conclui: “É um ato de invocação demoníaca afim de pedir aos espíritos que guiem aquele que morreu”. Nada mais longe da verdade.

Apesar da tribo Bassari ser animista e estar debaixo de forte influência do mal, este ato em particular não passa de uma forma de conservar o corpo do morto durante os dias de espera pelos parentes de aldeias distantes. A água e gordura têm uma propriedade de retardar a decomposição do corpo; a cuia é usada porque não há panelas ou copos; a multidão posta-se ao redor da fogueira porque é assim que reúnem-se todas as noites mesmo porquê não há energia elétrica, e folhas verdes são queimadas (com um pouco de água sendo aspergida) afim de produzir bastante fumaça e espantar os mosquitos. As palavras ditas são provavelmente os cumprimentos a cada pessoa que chega de outras aldeias para o funeral. Na verdade este não é um ato religioso mas sim um processo cultural-científico, ou ‘apenas um ato social’ como diria Kenner.

Denomino de ‘neurose espírito-fenomenológica’ a tendência que nós missionários temos de analisar religiosamente todo e qualquer fenômeno interpretando-o como quem chegou para dissecar a religiosidade cultural sem entretanto ver o povo como uma sociedade que vive e não apenas cultua.

2. Nem tudo o que é cerimonial é demoníaco

Duas posturas são destrutivas na ação missionária para fins de comunicação: não crer na ação demoníaca e crer que tudo é ação demoníaca. Afim de entender a diferença entre os dois pontos podemos usar o conhecimento missiológico, nossa teologia, observação e sabedoria. Entretanto creio que nunca entenderemos a raiz do que é diariamente posto à nossa frente se do alto não nos for dado discernimento espiritual. Um fator agravante é que os fenômenos religiosos em uma cultura recém alcançada devem ser entendidos e interpretados o mais cedo possível afim de ativar a comunicação aplicativa do Evangelho, o que nos força a tomar posições interpretativas quanto a fenômenos locais muito cedo, quando ainda estamos pouco imersos culturalmente.

Olhando ao redor do universo Konkomba poderia citar um grupo expressivo de fenômenos sociais ou religiosos que necessitam de um esforço de discernimento afim de identificá-los do ponto de vista espiritual como por exemplo a circuncisão de rapazes quando passam para a idade adulta tornando-se ‘ujaman’ – homens; o corte da pele facial formando cicatrizes que apontam para o clã ao qual pertencem; a dança cerimonial após a morte de alguém; o banho de lama e óleo antes de um trabalho pesado ou longa viagem; a ‘venda’ das crianças que nascem após haver morte infantil na família etc. Outros são claramente negativos mas igualmente carentes de interpretação social como a morte e uma criança quando nascem gêmeos abandonando-a numa floresta a noite ou mesmo o sacrifício de crianças ‘defeituosas’ ou profundamente enfermas. Devemos entender que uma classificação normativa (demoníaco ou não demoníaco) pode saciar nossa sede de definições teológicas mas não são suficientes para alinhar um processo na ética de uma igreja que nasce entre um grupo recém alcançado; há necessidade de uma interpretação um pouco mais profunda levando em consideração que entre vários grupos (como animistas, hindus ou budistas) o comum não se dissocia do sagrado nem o material do espiritual havendo o que pode ser chamado, quase que paradoxalmente, de ‘integração dialética’. Nota-se na nossa índole brasileira uma tendência exorcista onde não há demonismo e um conformismo espiritual quanto à sua real atuação.

3. Nem tudo o que é cultural é puro

Este é o outro lado da moeda. O etnicismo defende a pureza natural das culturas intocadas o que pode em certa instância, influenciar a comunicação. Devemos ser sempre relembrados de que o pecado é cultural. Ele não ocorre em um plano supra humano mas brota do coração do homem envolto em seus conceitos e costumes, manifestando-se moldado às circunstâncias externas como língua, costumes e meio ambiente e por fim caindo no mesmo abismo que foi aberto desde o início: a separação entre o homem caído e o Deus santo. O pecado é cultural, manifesta-se culturalmente e o homem, em sua cultura, necessita de redenção.

Entre os povos isolados (meninas dos olhos dos antropólogos etnicistas) não encontramos um paraíso de pureza cultural mas sim povos curvados ao inimigo, vivendo um inferno na terra e procurando quase desesperados alguma maneira de redenção, mesmo que temporária. Procuram redenção nos sacrifícios, ídolos, amuletos, tabus, magias, rituais demoníacos e penitências. Entendo que a redenção está em Jesus, a mensagem é o Evangelho e entregá-la a outros chama-se Missões.


Teologia Bíblica

Teologia bíblica é um termo que deve ser pré conceituado antes de prosseguirmos. Utilizo-o sob o pressuposto temático. Não se trata portanto de ramos teológicos, teologia sistemática ou de teologia verdadeiramente bíblicas mas simplesmente da sistematização bíblico-temática de assuntos específicos, como ‘teologia de anjos’, ‘teologia de pecado’ ou ‘teologia de sofrimento’: um estudo bíblico temático vetero e neotestamentário. Definindo o termo, sigamos em frente.

A Antropologia Cultural tem como missão mapear, localizar e fazer as perguntas certas. Se olharmos para o Brasil, por exemplo, veremos um grande número de igrejas e pregadores que provêem diariamente respostas (muitas delas corretas teologicamente) para perguntas que nunca são feitas. Poucos interessam-se em estudar e compreender sobre câncer nos ossos quando na verdade o que os aflige é uma terrível gastrite. Esta é a primeira instrução antropológica cultural na abordagem de um novo grupo social: descubra as perguntas certas.

Denominações que, em países da América Latina, tem apresentado uma teologia de ‘prosperidade e sofrimento’ ou mesmo de ‘bênção e maldição’ (apenas para ficar em dois exemplos) tem achado público; não necessariamente pela seriedade das respostas (muitas sérias e outras não) mas sim pela identificação das perguntas. Em um superficial mapeamento cultural realizado em países socialmente existenciais como o Brasil facilmente veríamos que duas claras perguntas na mente do povo são: “Porquê sofremos ?” e “Como melhoraremos ?”

Entretanto localizar as perguntas certas não pressupõe sucesso na comunicação do evangelho. É necessário apresentar as respostas certas. Alerta: não as respostas que irão surtir efeito, satisfazer a alma ou gerar impacto individual e social: mas sim respostas biblicamente certas.


Dar respostas certas às perguntas certas normalmente é uma tarefa conflitante. Aqueles que o fizeram, já no primeiro século, foram apedrejados, expulsos, perseguidos, denominados de ‘peste’ e ‘transtornadores’. Para aqueles que pensam que uma genuína e culturalmente coerente exposição do evangelho redundará necessariamente em um positivo impacto social além de muitos frutos, precisamos ser relembrados que não se define Missões em termos de resultados mas sim de fidelidade ao Senhor. A questão final para a apresentação de uma teologia bíblica que responda à pergunta do coração do homem em sua cultura e língua não são os resultados humanos mas sim fidelidade ao Senhor e à Sua Palavra.

Nesta altura há duas verdades óbvias quanto ao treinamento missionário: primeiramente nossos candidatos à obra missionária precisam ser preparados biblicamente. Estudar a Palavra, conhecê-la, pesquisá-la textualmente, contextualmente e tematicamente. Investir em um bom preparo bíblico é investir diretamente no campo. Em segundo lugar precisamos entender que a fidelidade transpõe a habilidade. Neste momento o caráter cristão deveria ser a mais enfática disciplina em nossos cursos de formação missionária. Como um caráter à imagem de Cristo não pode ser forjado simplesmente em salas de aula precisamos urgentemente de discipuladores entre nossos professores de missões.

Uma grande descoberta pessoal tem sido a primária importância do caráter do missionário acima de sua habilidade de comunicar inteligivelmente o evangelho transpondo barreiras linguísticas, culturais, missiológicas etc.

Após três anos entre os Konkombas, quando a Igreja crescia rapidamente e o Evangelho alcançava lugares remotos perguntei aos líderes locais certa vez sobre a razão, principal, que colaborava para a nossa boa comunicação, mencionando três opções:
1. Habilidade de falar no dialeto local e ser entendido com facilidade;
2. Entendimento cultural, dos costumes e forma de vida Konkomba;
3. Envolvimento pessoal com a sociedade tribal, sendo aceito e aceitando-a;

Eles então responderam: “O ponto mais importante para nosso povo parar para ouvi-lo é porque você sempre sorri quando nos vê, parando para nos cumprimentar e sempre alegre em ouvir”. Naquele dia escrevi em meu diário: “caráter é mais importante que habilidade”.

Segundo Hustmann a história das missões se divide em três partes quanto ao conhecimento antropológico e aplicabilidade de teologia bíblica. Na etapa em que nos encontramos os erros antropológicos residem, não na falta do conhecimento mas na falta da disposição em aplicar o conhecimento. Em suma, um número reduzido de missionários erra hoje, em um nível básico de comunicação, devido à falta de entendimento da cultura ou conhecimento bíblico. Os grandes erros de comunicação são conseqüência de uma decisão em não aplicar o conhecimento adquirido. Problema de caráter, não de estudo.

Este princípio é também aplicável em todo um universo de existência missionária onde a grande maioria dos obreiros que voltam forçosamente do campo o fazem devido a problemas de relacionamento enquanto um pequeno índice apontaria para a falta de habilidade em aculturar-se. Caráter, em última instância, é o fator primordial que define relacionamentos, e relacionamentos (citando Abdulai Syin ) definem a pressuposição social de aceitação ou rejeição da mensagem que será pregada. Isto implicaria no fato de que, mesmo sendo o evangelho o poder de Deus, este Deus deseja que nós que o transmitimos, o façamos com fidelidade de vida e não apenas de conhecimento.

No universo Konkomba o julgamento de caráter precede a mensagem. A tribo terá disposição em ouvir aqueles que julga serem ‘mbamon’, palavra que significa algo como ‘altruísta’ ou ‘verdadeiro’, título dado a homens e mulheres que, através de suas vidas e relacionamentos, são confiáveis o suficiente para serem ouvidos pelo grupo. Não se recebe o título de ‘mbamon’ instantaneamente mas através de um processo de relacionamento interpessoal que espera-se ser mais prolongado quando trata-se de um estrangeiro. Obviamente falar e compreender a língua, morar com o povo e participar dos eventos importantes da tribo criam o ambiente para que o grupo tribal o estude e veja ‘suas reações quando irado ou provocado’, diz um provérbio Konkomba que fala sobre os passos para a aceitação social. Entretanto eu diria que 70% da aceitabilidade e credibilidade dada a um missionário em uma outra cultura, para citar o nosso contexto transcultural, reside no julgamento do caráter a partir do relacionamento interpessoal e não da habilidade cultural. Esta institucionalização da aceitabilidade do mensageiro e sua mensagem não pode ser vista de maneira formal e sistematizada na grande maioria dos grupos sociais (através de cerimônias ou ritos por exemplo) entretanto permanece o princípio de que, apesar da mensagem ir além do mensageiro, a credibilidade do conteúdo da mensagem será avaliada pelo grupo a partir do caráter do mensageiro.




Aprendizagem de Línguas

O aprendizado de línguas, juntamente à tradução da Palavra, é uma área de gritante necessidade de atenção em nossos cursos de formação de obreiros transculturais. Primeiramente pela óbvia necessidade do obreiro transcultural aprender uma nova língua para sobreviver, se relacionar e expor o evangelho, enfim: comunicar-se. O segundo motivo possui uma gravidade extra, e também histórica. Quando pensamos sobre o grupo que identificamos como PNAs (Povos Não Alcançados) surge uma pergunta crucial: “Porquê os PNAs permanecem não alcançados ainda em nossos dias ?” Seria pela falta de conhecimento etnológico: quem eles são, quantos são, onde estão e como chegar até eles ?

Na verdade o motivo circula ao redor de barreiras humanas. Fala-se que 80% dos povos considerados não alcançados já eram bem conhecidos mais de 10 anos atrás e constavam na lista de diferentes agências e juntas missionárias ao redor do mundo. Se ainda permanecem não alcançados, isto deve-se à existência de barreiras que os mantém dentro de uma retoma quase intocável. Estas barreiras são lingüísticas, antropológicas, missiológicas, políticas, geográficas, religiosas e espirituais.

Pela seleção natural quanto aos povos a serem alcançados ao longo das décadas, os que permanecem não alcançados neste fim de milênio podem ser considerados o ‘remanescente mais difícil’. Grande parte destes PNAs já sofreram algum tipo de tentativa de contato missionário ou exposição do evangelho no passado, sem sucesso, colocando-os na categoria de ‘mais difíceis’ em algum nível, e muitos deles a nível lingüístico.

Um exemplo simples poderia ser dado quanto às tribos ao norte de Gana na África. Aquelas que permanecem não alcançadas são nitidamente as que possuem línguas mais complexas, são culturalmente mais isoladas, influenciadas pelo Islã ou habitam regiões geograficamente mais isoladas. As mais resistentes ao evangelho, direta ou indiretamente, formam hoje o seleto grupo de PNAs e isto coloca um peso extra na responsabilidade de formar hoje a força missionária.

Quando falamos sobre Aprendizagem de Línguas estamos tratando sobre um ponto vital na comunicação missionária. Em média o missionário que envolve-se com um grupo pouco evangelizado fora do nosso país necessitará, no mínimo, de aprender duas novas línguas: a primeira delas chamamos de ‘básica’ (inglês, francês, árabe etc) que será usada para se estabelecer em um novo país onde habita o grupo alvo; a segunda delas chamamos ‘missiológica’ e é justamente a língua ou dialeto do grupo alvo. Em muitas circunstâncias o grupo alvo pode usar mais de uma língua ou dialeto criando novas ramificações.

Há portanto grande necessidade de investirmos a nível linguístico-prático na formação de nossos obreiros transculturais: enfatizar um bom curso de aprendizagem de línguas; expô-los à uma segunda língua, desafiá-los a romper a barreira da adaptação lingüística, ensinar-lhes fonética, fonologia, morfologia e conceitos de tradução da Palavra, mesmo que informal e para transmissão verbal do evangelho. Enfim, dar-lhes as ferramentas.

Do ponto de vista lingüístico há uma grande diferença entre o ideal missionário e a realidade missionária. Um exemplo pessoal. Quando chegamos em Gana fomos desafiados a trabalhar com um grupo conhecido como ‘Konkombas’ que, segundo os registros, falavam uma variação de 4 ou 5 dialetos. Chegando até eles e conhecendo-os de perto vemos hoje que ‘Konkombas’ é apenas uma expressão estrangeira sendo esta uma palavra totalmente desconhecida e sem sentido para a própria tribo. Também não são uma tribo mas algo que poderíamos chamar de ‘Nação Tribal’: um agrupamento de etnias irmãs sem concentração social mas com interesses comuns, onde são faladas 23 línguas e 64 dialetos diferentes, apenas dentre os grupos e sub grupos que conseguimos estudar. Nós hoje trabalhamos com 1 destes 23 grupos (que para facilitar a comunicação no Brasil continuamos a tratar como ‘Konkombas’) que se auto-entitula Bimonkpelnn onde são falados 9 diferentes dialetos, alguns tão distantes ao ponto de necessitarmos em média de três intérpretes a cada culto, apenas entre os ‘Bimonkpelnn’. A realidade não romântica do campo força-nos a investir na formação lingüística de nossos obreiros pois as barreiras existem para serem ultrapassadas e foi-nos confiada esta tarefa.


Formação missiológica ou Treinamento missionário ?

Gostaria de concluir propondo fazermos uma diferenciação curricular entre formação missiológica e treinamento missionário.

Uma diferença inicial e a mais visível seria de Objetivo. A primeira tem como alvo formar missiólogos, pensadores dos princípios que regem a missão, entre os quais estão muitos pastores e vários professores de missões além de executivos de agências missionárias. Estes precisam compreender, visualizar e traçar estratégias. Já o Treinamento missionário tem como alvo aqueles que em um certo momento ver-se-ão na linha de frente face a face com um povo, nação, grupo social ou etnia com os quais precisarão se relacionar passando por todo o processo de interação social com a finalidade de, após muitas fronteiras serem cruzadas, propor-lhes o evangelho. Estes também precisam compreender, visualizar e criar estratégias mas é necessário ir além. Precisam de ferramentas práticas com as quais trabalhar. Não basta saber da existência de línguas foneticamente complexas, é necessário aprender como articulá-las; não basta conhecer os exemplos clássicos de diferenças culturais, é preciso conhecer o método de mapeá-las; não é suficiente apenas o conhecimento missiológico de exposição temática do evangelho, é preciso saber como fazer. O treinamento missionário precisa ir além da formação missiológica da mesma forma que um médico, além de anos de estudo e conhecimento precisa realizar a ‘residência médica’ e se especializar antes de estar hábil a ir ao campo de trabalho.

O missiólogo se satisfaz quando encontra a resposta da sua pergunta, mas o missionário precisa testar a resposta no campo e vê-la funcionar. Os que precisam de formação missiológica tem os olhos voltados para a sistematização enquanto os que procuram um treinamento missionário atentam para a aplicabilidade.

É necessário caminhar. Implementar e traduzir para a realidade das nossas escolas de missões os desafios que conhecemos. Seja na formação de missiólogos ou no treinamento missionário que seja visto em nós, missões brasileiras, o genuíno caráter de Cristo. Isto revelará que não apenas conhecemos o camin
ho, mas também andamos por ele. Deus nos abençoe.

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M. Rocha